Guetos imaginários de Joanesburgo – FIFA2010 WorldCup

“Toda generalização é burra.” Esta frase, bastante divulgada, veio a calhar para desmistificar bastante coisa do que se fala na África do Sul a um estrangeiro. Uma das responsáveis pelas falsas imagens e clichês é a mídia.

Ana Monteiro
Correspondente na África do Sul

Já é de conhecimento amplo que a África do Sul sofreu um longo período sob o regime do apartheid, segregação racial que teve início nas primeiras décadas do século XX e durou até 1990. Portanto, como as gerações que conviveram segregadas ainda estão vivas ou deixaram os rancores como herança a seus filhos, ainda paira sob as mentes a ideia dos guetos e da violência da cor.

Para sermos precisos, um turista que chega a África do Sul é logo aconselhado a evitar certos lugares. Em Joanesburgo, por exemplo, fui aconselhada a não andar a pé, a não ir ao centro da cidade e a não pegar ônibus, ou vans, que são bem mais presentes. Bom, jornalista que não anda a pé perde os detalhes, que fazem toda a diferença.

Se não fosse ao centro, não teria uma visão geral da cidade, dos seus serviços e dos seus habitantes. E se não pegasse transporte público, o dinheiro iria todo para passeios de carro.

Mas antes de ignorar certos conselhos, é preciso entender o que está por detrás deles. Uma das pessoas que me disse isso mora há 40 anos na África do Sul e nasceu em Portugal.

Ao final da conversa disse que nunca pegou uma van, trem ou foi a certos lugares. A segunda se referia a lugares “de negros” e “de brancos”, como sendo seguros e perigosos, respectivamente. A nacionalidade da fonte é brasileira.

Em prévia experiência no país, vários sul-africanos, negros e brancos, também não me indicavam certos lugares. As cidades grandes aqui viraram um amontoado de guetos. Circular por eles, como afirmam certos sensos comuns, se torna um mito, uma lenda que ninguém quer por a prova.

De tudo isso, pode-se tirar, entre várias outras, duas conclusões. A primeira inicia a matéria. Não há como afirmar se não se conhece.

É claro que não se deve arriscar, em toda metrópole tende-se a ter mais violência pela relação direta entre o número da população e o índice de criminalidade, além dos poderes econômicos sofrerem um contraste maior. Mas deve-se ouvir histórias reais, para que a análise não inclua fantasia e preconceito, no seu sentido mais primário, que é julgar pelas aparências, ou mesmo pelo que não se conhece.

A placa em um bairro de classe média de Joanesburgo diz: “Invasores serão devorados” (Foto: Ana Monteiro)A outra conclusão é a de que na África do Sul, os guetos imaginários ou reais assombram constantemente a vida dos moradores e dos turistas. É uma pena que o senso comum tenha vencido a curiosidade. Assim, os espaços para o convívio das diferenças se tornam cada vez menores e daqui a um tempo ficará realmente impossível transitar por alguns lugares, pois aí sim, a violência sairá do armário porque encontrará espaço na rua.

A seguir algumas desmistificações sobre a África do Sul (continuam na medida em que a esperiência vai abrindo caminho):

– Andar de trem, além de muito mais econômico, é um belo passeio pelo país. Até mesmo nas cidades, como na Cidade do Cabo, é possível visitar vinícolas e reservas naturais com pouco menos de R 5 (Cinco rand, pouco mais de um real). A única ressalva é que a partir das 18h as mulheres não são aconselhadas a pegarem os trens urbanos. (Os guardas as recolhem de vagão em vagão)

– Andar a pé não significa ser assaltado. Como em todo lugar do mundo, andar a noite em lugares desertos pode ser perigoso, pelo simples de não se ter um controle do crime eficiente.

– “Negros são pobres do que brancos.” Na África do Sul, desde o regime de cotas nas empresas para negros, a desigualdade econômica diminuiu bastante. Ainda é cedo para dizer se foi a melhor política, mas o fato é que a população negra ganhou mais espaço em toda a esfera da administração pública e privada, e divide os mesmos benefícios de consumo do que os brancos ou qualquer outra cor.

Sobre jornaldesabado

Ana Monteiro Correspondente na África do Sul http://jornaldesabado.com.br
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